sábado, 2 de outubro de 2010

Inquietação

Eram quatro da manhã, a garota sentada na cadeira, enroscava seus braços em seus joelhos que estavam próximos de si, unindo-os em uma tentativa de amenizar o que sentia. Seu coração latejava de dor, e gostaria demasiadamente de poder gritar, de poder expor para os seres humanos a dor que lhe era causada. Parece até que ela sentia falta da dor... Ou é apenas uma impressão? Ela mesma sabia que amor em demasia era inapropriado para uma criatura como ela; não era suficiente para matar sua sede de liberdade. Doravante, ela aprenderia a lidar com isso. Ao menos é o que penso a respeito. Mas dor demais também não machuca? É, de fato; todavia, devemos senti-la remoer nosso pensamento, devemos senti-la latejando em nosso peito, devemos senti-la sempre que cairmos de um sonho, de uma ilusão. Devemos senti-la para que fiquemos fortes o bastante para evitar possíveis abalos. O cômico da situação, é que pergunto-me: quantas quedas serão necessárias? E no mesmo instante acho uma pergunta tão pessoal... Cada pessoa tem seu tempo para descobrir o tamanho de suas ilusões e consertá-las, pois somente nós mesmos podemos ser verdadeiros uns com os outros. A garotinha também pensava assim, e eu sabia.
Estava tão farta de mentiras, que seu coração desconfiava até mesmo quando a brisa estava tão suave que podia bater levemente em suas bochechas extremamente brancas e frias; ela desconfiava da própria natureza, Deus!, onde é que as coisas estão?
A pequena mantinha seus braços próximos ao seus joelhos, apertando-os conforme a dor aumentava - ela saberia suportar, ela teria que suportar -, é apenas uma pontada, ela já havia passado por coisas piores. Uma exímia felicidade lhe invadia o peito de vez em quando, porém, não era duradoura... sempre acabava em decepção - não que ela já não estivesse acostumada... pelo contrário, já lhe era comum. Ela já sabia que não devia acreditar no que as pessoas diziam.
Por isso, com a caneta e o papel nas mãos, ela desenhava e escrevia seu próprio mundo, pois o que lhe cercava, ela não compreendia.

As badaladas que o relógio dava, pareciam muito longas, quase cruéis; a janela aberta ecoava o silêncio da menina, a brisa - nem tão suave, como de costume - lhe invadia, passando pelo local onde ela sentava todas as noites, a janela estava imóvel - aberta, com as cortinas presas de um jeito desajeitado pela própria menina. A cama desejeitada refletia a insônia, e alguns livros espalhados pelo chão faziam parte de seu mundo, talvez, meramente fantasioso, meramente realista, poderia ser as duas coisas. Não poderia? Creio que sim, eu sei, e você também sabe, que ela é capaz de unir a fantasia com sua realidade, ela é capaz de unir divergências, por isso é tão imprevisível.
Era apenas mais uma noite, mais uma das milhares que ela passaria sozinha, fitando cada movimento defronte a sua janela. Cada movimento que lhe era previsto. Ou não.

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